Como o Estresse Mexe com o Sistema Imunológico: O Que a Ciência Descobriu
Quando
pensamos em estresse, é comum imaginar apenas tensão emocional, preocupações e
ansiedade. Mas, na visão científica, o estresse é um fenômeno muito mais amplo
e profundamente biológico. Ele provoca uma série de reações internas que têm um
impacto direto — às vezes positivo, mas muitas vezes prejudicial — no nosso
sistema imunológico.
O artigo
de Padgett e Glaser, pesquisadores renomados na área de psiconeuroimunologia,
mostra exatamente como isso acontece e por que o corpo reage dessa forma. A
ideia central é simples: o estresse muda o comportamento das nossas células
de defesa, influenciando a produção de hormônios e ativando sistemas que
moldam a resposta imune.
A seguir,
você vai entender de maneira acessível como o corpo reage ao estresse e o que
isso significa para a sua saúde.
O Corpo Tem Dois Grandes “Sistemas de Alerta”
Contra o Estresse
A ciência
mostra que quando você enfrenta um estressor — físico, mental ou emocional —
dois grandes sistemas são ativados ao mesmo tempo:
✓ Eixo HPA
(Hipotálamo–Hipófise–Adrenal)
Esse
sistema libera cortisol, o famoso “hormônio do estresse”.
✓ SAM
(Sistema Simpático–Adrenal–Medular)
Esse
sistema libera catecolaminas, como adrenalina e noradrenalina.
O Hipotálamo: a Central de Monitoramento do
Corpo
O artigo
explica que o hipotálamo age como um sensor do ambiente. Ele recebe informações
por:
- visão
- olfato
- audição
- dor
- temperatura
- emoções
Quando
percebe perigo, coordena a liberação de hormônios que ativam a resposta ao
estresse.
É como se
o cérebro avaliasse o mundo externo e interno 24h por dia, pronto para apertar
o botão de alerta.
O Cortisol e Seu Papel na Imunidade
O que é NF-κB?
É uma
proteína chave que controla a produção de citocinas — moléculas usadas
pelo sistema imune para ativar células e promover inflamação.
O que o cortisol faz?
Ele reduz
a atuação do NF-κB, diminuindo a inflamação.
Isso é
ótimo em situações agudas, mas perigoso quando o cortisol fica alto por muito
tempo.
Quando a Exposição Prolongada ao Cortisol Começa
a Dar Problema
O artigo
mostra que o excesso de cortisol, comum em pessoas com estresse crônico, pode:
- atrapalhar a proliferação de
células imunológicas
- reduzir a produção adequada
de anticorpos
- diminuir a capacidade de
defesa contra vírus e bactérias
- desregular a resposta
inflamatória
- gerar vulnerabilidade a
doenças
Ou seja,
aquilo que deveria proteger o organismo começa a deixar o sistema imune desorganizado.
A Dupla Influência das Catecolaminas
As
células de defesa possuem receptores adrenérgicos, principalmente do
tipo β2, que respondem diretamente a esses hormônios.
Quando
eles se ligam a esses receptores, ativam o CREB, uma proteína que altera
a expressão de genes ligados à produção de citocinas.
Em outras palavras:
- adrenalina e noradrenalina podem
aumentar ou reduzir a inflamação
- influenciam anticorpos
- alteram a circulação das
células imunes
- mudam a força de ataque
contra vírus e tumores
Isso
explica por que pessoas sob forte estresse têm maior risco de:
- gripes recorrentes
- herpes ativada
- cicatrização lenta
- infecções mais frequentes
- piora de doenças inflamatórias
O Estresse Afeta a Imunidade em Uma Escala
Grande o Suficiente para Prejudicar a Saúde
O estudo
cita evidências em animais e seres humanos mostrando que o impacto do estresse
não é algo pequeno ou abstrato — ele é clinicamente significativo.
Os
autores afirmam que o estresse:
- reduz a atividade das
células NK (importantes no combate a tumores e vírus)
- altera a produção de
anticorpos
- mexe na migração das células
de defesa
- aumenta inflamações crônicas
- prejudica o equilíbrio entre
células pró e anti-inflamatórias
E todas
essas mudanças são grandes o bastante para contribuir para doenças reais, como:
- infecções frequentes
- piora de alergias
- reativação de vírus latentes
(como herpes)
- doenças autoimunes
- doenças cardíacas associadas
à inflamação
Outros Caminhos Biológicos Envolvidos (Além do
Cortisol e da Adrenalina)
✓ Opioides
endógenos
Reduzem a
capacidade das células NK.
✓ Substância
P
Diminui a
produção de IL-16, interferindo em processos inflamatórios.
Isso
reforça que o estresse é uma rede complexa, envolvendo hormônios, neurotransmissores
e moléculas inflamatórias que atuam simultaneamente.
Estresse Não É
Só Emocional — É Imunológico
O artigo
deixa uma mensagem muito clara:
O
estresse crônico muda a expressão gênica das células de defesa e desregula o
sistema imunológico.
A desregulação do eixo HPA como gatilho central da autoimunidade
A desregulação prolongada do eixo HPA representa um dos mecanismos mais
importantes na ligação entre estresse crônico e doenças autoimunes. Em
condições fisiológicas, o eixo HPA atua como um “freio biológico”, modulando a
inflamação por meio da liberação precisa de cortisol. Esse hormônio normalmente
exerce potente ação anti-inflamatória, reduz a atividade de células imunes
hiper-reativas e mantém o organismo em equilíbrio frente a desafios externos.
Contudo, quando o estresse se torna persistente, o sistema perde sua capacidade
de resposta adaptativa, e o que deveria proteger começa a favorecer processos
inflamatórios anormais. O estudo destaca que o mau funcionamento desse eixo
está associado a dois erros críticos: enfraquecimento do feedback negativo e
resistência ao cortisol pelas células-alvo. Isso significa que, mesmo quando o
organismo produz cortisol, os tecidos deixam de reconhecê-lo adequadamente,
criando um cenário paradoxal onde níveis normais ou elevados coexistem com
inflamação descontrolada.
Além disso, o artigo enfatiza que a exposição contínua ao estresse altera
profundamente a dinâmica de produção dos hormônios CRH, ACTH e cortisol,
rompendo padrões circadianos essenciais para a regulação imunológica. Esse
rompimento interfere na diferenciação de linfócitos, na ativação de macrófagos
e na liberação de citocinas pró-inflamatórias, como IL-6, TNF-α e IL-1β. O
resultado é um sistema imunológico mais propenso a reconhecer estruturas do
próprio corpo como ameaças, iniciando reações autoimunes que afetam múltiplos
órgãos. Evidências clínicas revisadas pelos autores mostram que tal disfunção
está presente em pacientes com lúpus, artrite reumatoide e esclerose múltipla —
condições onde o eixo HPA frequentemente exibe sinais de exaustão ou resposta
irregular. A literatura analisada reforça que a resistência aos
glicocorticoides não apenas aumenta a inflamação, mas também prejudica a
capacidade do organismo de “desligar” respostas imunes exageradas, permitindo
que a autoagressão persista.
Efeitos sistêmicos da desregulação do eixo HPA na autoimunidade
A ruptura do funcionamento adequado do eixo HPA desencadeia uma cascata de
consequências em múltiplos sistemas do organismo, criando um cenário onde o
estresse crônico se transforma em um facilitador direto de doenças autoimunes.
No sistema neuroimune, por exemplo, o artigo destaca que o excesso contínuo de
CRH e a instabilidade do cortisol prejudicam a comunicação entre neurônios,
microglia e células imunes periféricas, levando à liberação persistente de
citocinas inflamatórias dentro do sistema nervoso central. Esse processo
contribui para hiperexcitabilidade neuronal, aumento da permeabilidade da
barreira hematoencefálica e disfunções comportamentais como fadiga extrema,
ansiedade e déficits cognitivos — sintomas frequentemente observados em doenças
autoimunes de base neuroinflamatória, como a esclerose múltipla. A alteração
metabólica cerebral resultante não apenas agrava a inflamação, mas cria um
ciclo contínuo onde o próprio estresse gerado pela doença retroalimenta o eixo
HPA de forma negativa.
No sistema endócrino, a disfunção crônica afeta o equilíbrio hormonal
global, já que o eixo HPA mantém conexões íntimas com o eixo tireoidiano e o
eixo gonadal. A literatura analisada no artigo mostra que altos níveis de
cortisol associados à sua baixa eficiência funcional podem reduzir a conversão
de T4 em T3, gerar resistência periférica aos hormônios da tireoide e
intensificar distúrbios metabólicos. Isso ajuda a explicar por que doenças
autoimunes frequentemente coexistem com alterações tireoidianas, como a
tireoidite de Hashimoto. Além disso, o desequilíbrio afeta hormônios sexuais,
diminuindo estrógeno, testosterona e progesterona, todos com papel essencial na
regulação do sistema imune. Essa interação hormonal disfuncional contribui para
a maior prevalência de autoimunidade em mulheres e para a piora dos sintomas em
períodos de variação hormonal intensa.
No sistema cardiovascular, o artigo destaca que o estresse crônico e a instabilidade do cortisol promovem aumento persistente de marcadores inflamatórios e reduzem a capacidade vasodilatadora, criando um ambiente ideal para dano endotelial. Esse processo está associado à maior rigidez arterial, alterações no ritmo cardíaco e risco aumentado de aterosclerose mediada por inflamação — uma condição frequentemente agravada em doenças como lúpus e artrite reumatoide. No sistema gastrointestinal, o estresse contínuo compromete a barreira intestinal, aumentando a permeabilidade e permitindo que fragmentos bacterianos atravessem a mucosa, ativando ainda mais o sistema imune. Esse fenômeno, conhecido como “leaky gut”, é amplamente citado como um disparador importante de autoimunidade.
Efeitos no sistema tegumentar e musculoesquelético
A desregulação prolongada do eixo HPA também afeta profundamente o sistema
tegumentar — especialmente a pele, que funciona como uma extensão imunológica
do organismo. O artigo destaca que a exposição contínua ao cortisol altera a
renovação celular, reduz a produção de colágeno e enfraquece as barreiras
físicas da epiderme, tornando a pele mais suscetível a inflamações, infecções e
cicatrização deficiente. Esses mecanismos explicam por que indivíduos sob
estresse crônico apresentam maior predisposição a dermatites, psoríase e pior
resposta imunológica diante de agressões externas. Ao mesmo tempo, o excesso de
catecolaminas intensifica a vasoconstrição cutânea, piorando quadros
inflamatórios e contribuindo para a sensação de ardor e coceira comuns em
distúrbios de origem autoimune ou neuroimune.
No sistema musculoesquelético, o desequilíbrio prolongado do cortisol
provoca degradação de proteínas estruturais, redução na síntese muscular e
aumento de marcadores inflamatórios circulantes. O artigo explica que essa
combinação compromete a força muscular, reduz a densidade óssea e intensifica
estados dolorosos, especialmente em doenças com componente autoimune e
inflamatório como artrite reumatoide e polimialgia. Além disso, o aumento de
citocinas pró-inflamatórias.
Integração entre cortisol, catecolaminas e resposta imunológica
O artigo reforça que os efeitos mais significativos surgem não pela ação
isolada do cortisol ou das catecolaminas, mas pela interação entre eles. Em um
cenário saudável, o cortisol deveria reduzir a inflamação e modular a atividade
imunológica como um “freio natural” do sistema. Entretanto, quando o estresse é
constante, os receptores de glicocorticoides nos linfócitos e macrófagos deixam
de responder adequadamente — um fenômeno conhecido como resistência ao
cortisol. Isso faz com que o hormônio, mesmo em níveis elevados, perca
sua capacidade de limitar a ativação de NF-κB, permitindo que a produção de
citocinas inflamatórias continue acelerada.
Paralelamente, as catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) passam a atuar
por meio dos receptores β2-adrenérgicos, ativando intensamente o CREB e
aumentando a expressão de genes relacionados à produção de citocinas — muitas
delas pró-inflamatórias. O resultado é um sistema imune que, ao invés de ser
regulado, se mantém hiperativo e desorganizado. Esse estado duplo, citado no
artigo, cria a chamada desregulação imunológica induzida pelo estresse,
que contribui para maior suscetibilidade a infecções, pior resposta vacinal,
reativação de vírus latentes (como herpesvírus) e aumento da inflamação
sistêmica.
Participação de outros mediadores: opioides endógenos e
neuropeptídeos
Embora o foco do artigo esteja em glicocorticoides e catecolaminas, os
autores destacam que outros sistemas fisiológicos também influenciam a resposta
imune durante o estresse. Entre eles, os opioides endógenos
chamam atenção por reduzirem a citotoxicidade das células NK, que são
essenciais na defesa contra vírus e células tumorais. Com essa redução, o corpo
perde parte da sua capacidade de vigilância imunológica, o que pode explicar
por que períodos prolongados de estresse estão associados ao aumento de
infecções e maior facilidade para desenvolvimento de algumas neoplasias.
Outro mediador citado é o neuropeptídeo substância P,
conhecido por modular dor e inflamação. Curiosamente, o artigo explica que a
substância P pode diminuir a resposta inflamatória ao suprimir a produção de
IL-16 pelos eosinófilos — uma ação que demonstra como diferentes vias
neuroendócrinas tentam compensar o ambiente alterado pelo estresse crônico. No
entanto, essas tentativas nem sempre são suficientes para manter o equilíbrio
quando o eixo HPA já está profundamente desregulado.
Implicações clínicas e relevância para a saúde pública
De acordo com o artigo, a soma desses mecanismos — resistência ao cortisol,
ativação constante do sistema simpático, alteração da expressão gênica e
comprometimento da ação das células imunes — é significativa o bastante para
gerar consequências clínicas mensuráveis. Evidências em humanos e animais
comprovam que o estresse crônico aumenta o risco de:
Os autores reforçam que esses impactos são suficientemente grandes para
serem considerados um problema relevante de saúde pública, especialmente em
sociedades modernas marcadas por estresse contínuo, privação de sono, excesso
de estímulos e baixa recuperação biológica.
Conclusão do artigo
A conclusão do estudo destaca que os glicocorticoides e as catecolaminas são
os principais mediadores biológicos dos efeitos do estresse sobre o sistema
imune, mas não atuam sozinhos. Vias adicionais — incluindo opioides endógenos e
neuropeptídeos como substância P — compõem uma rede complexa de regulação
neuroimunológica que determina como o corpo responde ao estresse em diferentes
intensidades e durações.
A revisão conclui afirmando que compreender essa interação é essencial para
o desenvolvimento de abordagens terapêuticas que considerem o estresse como
fator fisiológico determinante na saúde, não apenas emocional, mas imunológica
e sistêmica.
- “How stress influences the immune response” (Trends in Immunology): descreve como o cortisol se liga a células imunes e altera a produção de citocinas. (ScienceDirect)



