Multivitamínicos — Funcionam mesmo ou são apenas marketing?
Nos
últimos anos, o consumo de multivitamínicos disparou. Nas farmácias,
prateleiras estão repletas de cápsulas coloridas que prometem mais energia,
imunidade reforçada e até melhora da memória. A dúvida é inevitável: será que
eles realmente funcionam, ou não passam de propaganda bem elaborada? A verdade
é que a resposta não é única, pois depende de fatores como idade, estilo de
vida, alimentação, saúde prévia e até do tipo de suplemento escolhido. Para
algumas pessoas, multivitamínicos podem ser aliados importantes; para outras,
podem representar pouco ou nenhum benefício. A chave está em compreender para
quem são indicados, como são formulados e quais limites eles têm em comparação
com uma dieta equilibrada.
Estudos
científicos ajudam a esclarecer essa questão. O famoso Cosmos Trial,
conduzido com milhares de adultos acima de 60 anos, mostrou que aqueles que
tomaram um multivitamínico diariamente apresentaram melhor desempenho em testes
de memória e cognição do que os que tomaram placebo. Outro estudo, realizado
com o multivitamínico Centrum Silver, reforçou essa descoberta, indicando que o
uso regular poderia retardar em até dois anos o declínio cognitivo. Esses
achados são animadores, mas precisam ser interpretados com cautela: eles se
aplicam, em especial, a idosos, grupo em que a absorção de nutrientes já é
naturalmente prejudicada. Quando ampliamos a análise para doenças crônicas,
como câncer e problemas cardiovasculares, os resultados mudam. Grandes revisões
científicas, que reuniram dados de centenas de milhares de pessoas, não
encontraram evidências de que multivitamínicos reduzam mortalidade, risco de
infartos ou desenvolvimento de câncer. Ou seja, não são uma fórmula mágica de
prevenção.
Um olhar
mais atento aos rótulos revela outra realidade: multivitamínicos não
suprem todas as necessidades diárias do corpo. Tomemos como exemplo o Centrum
Adulto, um dos mais populares. Ele traz 60 mg de vitamina C (60% da
recomendação diária), 10 mcg de vitamina D (67%), 200 mcg de vitamina A (25%) e
doses altas de vitaminas do complexo B, como B12 (301% da recomendação). Nos
minerais, o quadro é diferente: apenas 25% de cálcio, 24% de magnésio e 58% de
ferro. Isso significa que o suplemento cobre bem nutrientes regulatórios, mas
deixa para os alimentos a função de entregar minerais estruturais, como cálcio
e magnésio, que exigem doses muito maiores para chegar a 100%. A escolha não é
por acaso: incluir 100% de cálcio em uma cápsula tornaria o comprimido grande,
caro e de absorção difícil. Assim, os fabricantes calibram fórmulas de forma
estratégica: reforçam nutrientes que costumam faltar na dieta (como B12, folato
e vitamina D), mas mantêm minerais volumosos em baixa quantidade, esperando que
a alimentação complete a lacuna.
Outro
fator importante são os riscos do uso indiscriminado. A vitamina A, em
excesso, pode ser tóxica ao fígado; a vitamina D, se consumida em doses
exageradas, pode causar cálculos renais e problemas nos rins; o ferro, sem
necessidade real, pode provocar constipação e até sobrecarga hepática. Além
disso, certas vitaminas interagem com medicamentos. A vitamina K, por exemplo,
pode reduzir a eficácia de anticoagulantes, enquanto a vitamina E em excesso
aumenta o risco de sangramentos. Isso reforça a necessidade de acompanhamento
profissional. Um nutricionista ou médico pode solicitar exames para avaliar
carências reais e recomendar o suplemento certo, na dose certa, evitando riscos
e desperdícios.
É
importante também destacar os sinais do corpo que podem indicar
deficiência nutricional. Cansaço persistente, mesmo após noites bem dormidas,
pode ser um alerta para falta de ferro, B12 ou magnésio. Queda de cabelo e
unhas fracas estão ligadas à falta de zinco, biotina ou vitamina D. Infecções
recorrentes sugerem deficiência de vitamina C ou zinco, enquanto lapsos de
memória e dificuldade de concentração são comuns em quem tem baixos níveis de
B12. Esses sintomas, porém, não devem ser interpretados isoladamente. Só exames
de sangue podem confirmar se há deficiência real, e é a partir disso que se
avalia a necessidade de um multivitamínico ou de suplementos específicos.
A escolha
do multivitamínico também merece atenção. Fórmulas genéricas podem até
ajudar, mas versões específicas para homens, mulheres, idosos ou gestantes
oferecem nutrientes ajustados para cada perfil. Mulheres em idade fértil, por
exemplo, precisam de mais ferro; já homens devem evitá-lo em excesso. Idosos,
por sua vez, se beneficiam mais de doses reforçadas de vitamina D e B12. Além
disso, nem todos os nutrientes vêm na mesma forma química. O ferro bisglicinato
é mais absorvível que o sulfato ferroso, e a metilcobalamina é mais
biodisponível que a cianocobalamina. Esses detalhes impactam diretamente a
eficácia do suplemento.
No fim, a
pergunta não deve ser “multivitamínicos funcionam?”, mas sim “para quem, em que
dose e com qual objetivo?”. Eles não substituem uma alimentação rica em frutas,
verduras, proteínas e cereais integrais, mas podem ajudar em situações
específicas, como gestação, envelhecimento, dietas restritivas e rotinas muito
desequilibradas. Usados com responsabilidade, fecham pequenas lacunas
nutricionais; usados sem critério, podem ser inúteis ou até prejudiciais. O
segredo está em entender as necessidades individuais e usar a suplementação
como aliada, e não como solução única.
🔗 Fontes e referências
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