História e uso tradicional do maracujá como calmante
O
maracujá, conhecido cientificamente como Passiflora edulis, é uma fruta
tropical que faz parte do cotidiano de milhões de brasileiros, seja em sucos,
sobremesas ou até em chás. Porém, além de sua fama pelo sabor refrescante, essa
planta carrega uma longa trajetória ligada à saúde e, principalmente, ao seu
potencial efeito calmante. Desde tempos antigos, povos indígenas da América do
Sul já utilizavam diferentes partes da planta – principalmente as folhas e
flores – em infusões medicinais para combater sintomas como insônia, agitação,
estresse e até dores no corpo. Essa prática se difundiu rapidamente com a
chegada dos colonizadores europeus, que ficaram impressionados com as
propriedades da planta, levando-a para o Velho Continente como uma espécie
exótica com usos terapêuticos.
Ao longo
dos séculos, o maracujá consolidou-se na medicina popular. Nas regiões rurais
do Brasil, por exemplo, era comum preparar chás das folhas secas como um
recurso natural para tranquilizar crianças agitadas ou ajudar adultos com
dificuldade para dormir. Essa sabedoria popular não surgiu por acaso: estudos
modernos identificaram substâncias bioativas no maracujá, como flavonoides e
alcaloides, que possuem ação no sistema nervoso central, promovendo sensação de
relaxamento. Ou seja, a ciência confirmou aquilo que já era observado empiricamente
por diversas culturas.
Além do
Brasil, outros países da América Latina, como o Peru e o México, também
desenvolveram tradições fitoterápicas envolvendo a Passiflora. Na
Europa, principalmente no século XIX, extratos da planta passaram a ser
utilizados em farmácias e recomendados como sedativos leves para pacientes com
distúrbios de ansiedade e insônia. Isso mostra que o reconhecimento do maracujá
como calmante não ficou restrito ao uso doméstico, mas alcançou inclusive a
medicina formal, sendo até hoje incorporado em suplementos naturais e
fitoterápicos vendidos em farmácias e lojas de produtos naturais.
Esse uso
tradicional do maracujá como calmante permanece vivo até hoje. Muitas pessoas
ainda recorrem ao chá de suas folhas antes de dormir, enquanto outras preferem
suplementos em cápsulas que concentram os princípios ativos da planta. A
tradição, somada à comprovação científica, fortalece a imagem do maracujá como
um dos principais aliados naturais no combate ao estresse e à ansiedade. E,
embora não substitua tratamentos médicos em casos graves, ele continua sendo
uma alternativa acessível, culturalmente valorizada e cada vez mais reconhecida
no mundo.
Culturas indígenas e o uso tradicional do maracujá em rituais e tratamentos
Entre os povos indígenas da América do Sul, o maracujá sempre ocupou um
espaço que ia muito além de alimento. As comunidades nativas observavam
atentamente a natureza e, ao longo de gerações, descobriram que as folhas e
flores da Passiflora tinham propriedades capazes de acalmar a mente e
relaxar o corpo. Assim, o maracujá passou a ser incorporado em práticas de cura
que combinavam rituais espirituais e tratamentos medicinais. Em muitas aldeias,
os pajés utilizavam o chá preparado com folhas da planta não apenas como
remédio contra a insônia e a agitação, mas também como suporte em cerimônias
voltadas à reconexão espiritual, pois acreditavam que ele ajudava a trazer
tranquilidade e clareza mental.
Essa tradição variava conforme cada povo. Algumas etnias, por exemplo,
utilizavam a infusão de maracujá para acalmar guerreiros antes de batalhas,
acreditando que a serenidade mental era tão importante quanto a força física.
Outras recorriam ao chá para tratar crises de ansiedade, dores no corpo ou até
convulsões, entendendo que a planta tinha uma espécie de “espírito de
equilíbrio” capaz de restaurar a harmonia perdida. Em certas regiões, o maracujá
era ainda oferecido em rituais de passagem, simbolizando paz interior e
controle das emoções diante de momentos de transformação na vida comunitária.
Além do chá, os indígenas faziam uso de cataplasmas com folhas de maracujá
para tratar dores locais e relaxar músculos, algo que hoje sabemos estar
relacionado às propriedades anti-inflamatórias da planta. Curiosamente, havia
também a crença de que o perfume suave das flores contribuía para afastar maus
espíritos e induzir ao descanso profundo, mostrando que o valor do maracujá ia
muito além do físico: ele também estava enraizado no campo espiritual e
simbólico. Esses usos revelam como o conhecimento tradicional era construído de
forma ampla, unindo corpo, mente e espiritualidade em um mesmo processo de cura.
A partir dessas práticas indígenas, o maracujá foi ganhando espaço no
imaginário popular e, posteriormente, na fitoterapia reconhecida. Esse legado é
tão forte que até hoje o maracujá continua associado ao equilíbrio emocional e
ao bem-estar, reforçando a herança de um conhecimento que nasceu no contato
íntimo dos povos originários com a natureza. A tradição oral garantiu a
transmissão desse saber por séculos, tornando possível que o maracujá
permanecesse não só como um fruto nutritivo, mas também como uma verdadeira
planta medicinal de valor cultural e terapêutico.
Ciência moderna e os compostos calmantes do maracujá
A sabedoria indígena sobre os efeitos calmantes do maracujá encontrou
respaldo na ciência contemporânea. Pesquisadores descobriram que nas folhas,
flores e até na casca do fruto existem compostos bioativos responsáveis pelas
propriedades relaxantes que já eram reconhecidas há séculos. Entre eles,
destacam-se os flavonoides, como a vitexina, a isovitexina
e a orientina, substâncias conhecidas por atuarem no sistema
nervoso central, ajudando a diminuir a excitabilidade dos neurônios. Esses
compostos funcionam de maneira semelhante a certos medicamentos ansiolíticos,
mas de forma natural e menos agressiva ao organismo.
Estudos mostram que o extrato da Passiflora incarnata pode aumentar
a atividade do neurotransmissor GABA (ácido gama-aminobutírico)
no cérebro. O GABA é essencial para regular a sensação de calma e controlar a
ansiedade, pois inibe a atividade excessiva dos neurônios. É como se o maracujá
ajudasse a “baixar o volume” da mente em momentos de agitação. Por isso, ele é
tradicionalmente usado como auxiliar no tratamento de insônia, estresse e até
sintomas de depressão leve. Além disso, pesquisas também identificaram que
alguns compostos do maracujá possuem efeito anticonvulsivante
e analgésico, o que explica seu uso tradicional no alívio de
dores e distúrbios nervosos.
Na prática clínica, extratos padronizados de Passiflora incarnata
são usados em fitoterápicos prescritos como calmantes naturais. Muitos deles
são indicados para pessoas que sofrem com distúrbios do sono, ansiedade
generalizada ou tensão nervosa. Diferente de medicamentos sintéticos, o maracujá
apresenta menos riscos de dependência e efeitos colaterais, tornando-se uma
alternativa interessante para tratamentos complementares. No entanto,
especialistas alertam que seu uso deve ser orientado por profissionais de
saúde, especialmente quando combinado com outros medicamentos ansiolíticos,
para evitar potenciais interações.
A integração entre o conhecimento ancestral e a comprovação científica
mostra como o maracujá é um exemplo de fitoterapia validada pela
ciência. O que antes era aplicado em rituais e práticas tradicionais
indígenas, hoje é explorado em laboratórios, hospitais e clínicas, reforçando
que a natureza guarda soluções poderosas quando estudadas com atenção e
respeito. Essa ponte entre tradição e ciência amplia ainda mais a importância cultural
e terapêutica do maracujá.
Usos modernos do maracujá na fitoterapia e indústria farmacêutica
Hoje, o maracujá ocupa um espaço de destaque na fitoterapia, sendo
considerado uma das plantas medicinais mais seguras e eficazes no tratamento de
distúrbios ligados ao estresse e à ansiedade. A forma mais comum de uso é
através de extratos padronizados da Passiflora
incarnata, disponíveis em cápsulas, comprimidos ou gotas. Esses
fitoterápicos são frequentemente prescritos por médicos e fitoterapeutas como
alternativas naturais aos ansiolíticos sintéticos. A grande vantagem é a menor
probabilidade de causar dependência química, um efeito colateral comum em
medicamentos convencionais. Além disso, pesquisas clínicas apontam que os
resultados no controle da ansiedade são comparáveis aos de substâncias
farmacológicas, especialmente em quadros leves a moderados.
Outra aplicação moderna é na preparação de chás medicinais,
feitos a partir das folhas secas da planta. O consumo de chá de maracujá é
bastante difundido em países da América Latina e da Europa, sendo reconhecido
por promover uma sensação de relaxamento quase imediato. Algumas indústrias de
produtos naturais associam o maracujá a outras ervas calmantes, como valeriana,
camomila e melissa, potencializando os efeitos sedativos de forma equilibrada.
Além disso, o maracujá também é encontrado em xaropes calmantes e até em
fórmulas pediátricas, sempre em concentrações ajustadas para maior segurança.
Na indústria farmacêutica, o maracujá é um ingrediente ativo presente em
medicamentos fitoterápicos registrados pela Anvisa no Brasil e por órgãos
regulatórios internacionais. Em muitos casos, esses produtos são recomendados
para pacientes com insônia, agitação nervosa e crises de ansiedade,
atuando como adjuvantes no tratamento, ou seja, complementando outras terapias.
Alguns laboratórios investem em pesquisas para desenvolver formulações ainda
mais eficazes, como extratos concentrados de flavonoides ou combinações
específicas para aumentar a biodisponibilidade dos compostos ativos.
Esse reconhecimento moderno mostra que o maracujá deixou de ser apenas uma
planta de uso caseiro e se tornou parte integrante da medicina natural
regulamentada. O que antes era aplicado em infusões simples pelas mãos de povos
indígenas, hoje é transformado em medicamentos validados cientificamente,
acessíveis em farmácias e recomendados por profissionais de saúde. Essa
trajetória evidencia a força da etnofarmacologia, onde o
conhecimento ancestral serve como base para descobertas científicas e aplicações
industriais, beneficiando milhões de pessoas no mundo todo.
O maracujá atravessou séculos mantendo sua essência como planta ligada ao
equilíbrio entre corpo e mente. Dos rituais e práticas de cura dos povos
indígenas, que já reconheciam seu poder de acalmar e fortalecer o espírito, até
a validação científica e o uso regulado pela indústria farmacêutica, a
trajetória dessa planta mostra como o conhecimento tradicional pode dialogar
com a ciência moderna. Hoje, seu papel na fitoterapia e em medicamentos
naturais reforça que aquilo que começou como saber popular continua atual e
indispensável. O maracujá não é apenas um fruto tropical; ele é um exemplo vivo
de como a natureza oferece respostas que resistem ao tempo e que, quando
investigadas com seriedade, transformam-se em soluções seguras e eficazes para
a saúde.
🔗 Fonte:
·
National Center for Complementary and
Integrative Health – Passionflower
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